13 novembro, 2014

Aquela do texto perdido de começo de ano__

Gosto da minha pele assim, dourada de sol
Do meu pé sujo, sujo, de andar descalça.
Sujo que não sai com um banho só, sabe?
Gosto dos cortes e das pequenas cicatrizes escondidas
Do cabelo cortado do meu jeito daquela hora que cortei
Dos dedos duros e sujos de tocar violão, de mexer com terra, brincar com gato.
Dos dentes meio tortos, caindo uns em cima dos outros em sorriso.
Gosto do vórtice em volta da pupila que se desenha no sol
Das partes meio ossudas, da cintura marcada em contraponto a molequice destrambelhada.
Do medo de escada, do gosto por precipícios,
do cheiro de folha, meio encrustado atrás da orelha,
dessa mania de olhar o contorno das coisas, e guardar o cheiro dos dias , dos cabelos
e do pezinho da nuca, cheirar sovaco,
lamber sorrisos, beijar nariz, de sentir nostalgia antecipada,
chorar em briga, não saber falar de amor,
de gostar de sofrer, de não querer mais fugir,
de gostar de fazer e desfazer malas, de ir embora e voltar,
desse soluço na beirada do estômago
que me pega quando tenho coragem,
quando desisto de sentir falta do que não tive,
e vou.

Todo fim de ano eu escrevo um texto pra lá de piegas. É quase uma necessidade, essa coisa de agradecer a própria sobrevivência, os (in)felizes encontros, os cortes no joelho, a propensa depressão seguida de renascimento. Hesitei muito em escrevê-lo este ano. Pelo fim-passagem em si, inédito, esquisito, machucado, todo solidão amarga de saudade e desentendimento. Vontade de gritar pra fazer-se entender, fuga, abandono, silêncio de dias e mais dias que ainda estão.
Esse ano me assombrava antes de começar. Eu o temo, de tão diversas maneiras, que nem no final acho que me farei entender. 2013 - arrasto, 2014 – pavor. Mas no arrasto me fiz encontrar, conhecer, apaixonar, reconhecer. Então uma faísca de todo o medo, que anseia mudança, amanhã, vem logo!, também se anima.
Arrumando minhas coisas hoje, encontrei um bloquinho de programas do TCC do Jota.  Abri e, como todas as vezes, fiquei abobalhada, chorando com aquele “agradeço as malas feitas e desfeitas, que fizeram de mim o que sou”. Nunca achei uma epígrafe melhor pra meu viver em São Paulo que isso. Sobre o mudar-se, ir embora, o acreditar, mudar de novo, e de novo e de novo, todas as pequenas malas de semanas e mês, de deslumbramentos e sonhos remodelados, malas de além-continente, além-mar, de planejamentos desfeitos, famílias criadas e recriadas.
Meu peito doeu. Literalmente. Às vezes acontece. E sabia que precisava escrever. Piegas, desabado, escancarado, o que fosse, era preciso escrever.
Porque 2013 virou tudo do avesso-certo, se assim podemos achar/chamar um certo.
E era preciso honrá-lo e agradecê-lo, dentro de todo peso, arrastamento, dificuldade, ao menos (e tanto, e quanto!) pelas boas companhias (re) encontradas.
Quando eu tive a ideia do Caixinhas, numa madrugada malfadada de álcool e discussões perturbadoras, eu sabia que era o momento de me reconciliar com minhas lembranças e entendê-las como tal. Conforme organizava uma espécie de dramaturgia daquilo, desci por várias escadas até salas úmidas, abrindo caixas, fuçando cartas e bilhetes esquecidos, buscando uma forma de contar aquela história. Minha cabeça virou um alvoroço de lembranças. Poemas, estranhas declarações de amor, pedidos desesperados de segunda (terceira, quarta...) chance. Relacionamentos imaginários, noite de balões, de cafés, de vômito, de gozo, golpes de confiança quebrada, amizades escancaradas. Sentir-se importante pra alguém - “Creio que sou uma pessoa melhor junto com pessoas semelhantes a você.” Coisas sobre estrelas, sobre o mar, sobre neblina, sobre saudade, e a incapacidade de relacionar-se. Amargo-desespero, solidão, encontrar-se no outro e perder-se, cheiro de álcool às 7 da manhã. Sobre descobrir-se forte e salvar-se, na falta de qualquer outra pessoa que possa fazê-lo por você. Brilho no caos, um girassol da cor de seu cabelo, malas refeitas, ladeiras e chuva. Uma porção de adeuses.
O grande barato de fazê-lo, no entanto, como muito do que aconteceu nos últimos meses de 2013, era a simultaneidade desse passado revisto - histórias sendo contadas, partilhadas - com o conhecer, apaixonar, criar das pessoas que surgiram e fizeram a ideia parecer possível. Cenários desenhados, cartas recortadas, explicações de setlist com o encartar-se com o Relampiandos, o igualar-se na pieguice-pra-não-voltar com o Jota, o fervilhar de ideias comuns e o criar junto com a Priscila e o Caio, rompendo com o não-consigo-fazer-isso-de-improvisar, um misto de admiração e amizade e acolher e sentir-se acolhida, a ressignificação de músicas e o reencontrar mútuo do Clube, e as madrugadas adentro de tocar e fascinar-se, apaixonar-se, fazer-se acreditar.
Essa coisa do “onde você esteve todo esse tempo?” e “por que diabos eu não vi vocês? Não fui ver tal peça, bati em tal porta, fiz tal coisa que podia nos encontrar?” com um conhecer-se quase voraz, entregue, apaixonado. Devorávamos convivência. Encontramo-nos por um acreditar comum, um lutar compartilhado. Talvez se deva a isso nosso encantamento primordial. Num dia nunca tínhamos nos enxergado, no outro batíamos boca lado a lado e dividíamos barracas, cobertores e arroz com legumes.
Entender o amor, o dividir, o repartir-se. Já não temo, abro-me. Todo um coração aberto. Sou toda sentimentos confusos, dispersos, despejados. Derramo-me sobre você, sobre outros e quem vai chegar.

A raposa se apaixonou por um escorpião, pela náusea, pelo cheiro de tinta, pelo trôpego de suas pernas, pelos sorrisos despertados, pela embriaguez de quase morte instantânea que nunca é tudo isso, pelos adeuses de si mesma - ou dos pedaços de si desencontrados - por um boneco de fita crepe, pelos olhos marejados, pelo acreditar dos outros nela que fazia tudo tão possível, por tanta coisa dentro e fora de si, que não saberia dizer.

05 novembro, 2014

às vezes ela sentava ali,
naquela beirada de precipício
(que a bem da verdade costumava ser uma sarjeta
ou beirada de cama qualquer)
no meio do caminho de um pulo que nunca chegava.
pendurava-se pelos pulsos que doíam,
respirando o vento parado na sua cara,
o gosto férrico no fundo da garganta
"todos os caminhos nos levaram até aqui"
e linhas desenhavam-se em sua pele
como quem conta uma história.
os olhos muito brilhantes e murchos de um cachorro preto
a olhavam em interrogação
e ela tentava lhe dizer que tudo aquilo tinha feito sentido antes
mas tudo que ela via sair da própria boca
não fazia sentido algum.
a paleta da minha cabeça está mudando de cor
novamente
-- era isso que ela tentava lhe dizer.
mas ele sabia
porque era por isso que ele estava ali
sentado ao seu lado naquela beirada de precipício
que era só uma calçada ou uma cama ou um banco regulável.
em sua mão, ela segurava um punhado de gravetos,
papéis amassados em cartas
e um bilhete de embarque.
não sabia como chegar ao lado.
queria acreditar que transpondo um oceano
tudo voltaria a arder.
e ardendo, doeria,
mas doendo,
saberia-se viva.

16 julho, 2013

Pequena Carta de Amor pro que Acabou

Não há espaços para melindros, é tarde meu bem.
Tanta, tanta coisa aconteceu, logo agora ou um mês atrás, que nem sei por onde começar.
Meus sonhos, aqueles que estavam tão perdidos, tão vazios de si, eu os encontrei. Alguns ainda vagavam ao meu lado confusos, outros eu reconstruí, à base de caquinhos guardados.
Precisei de amigos. Novos amigos, novos espíritos que me dessem força para acreditar.
Pessoas que acreditassem em coisas comuns, das quais tinha me esquecido, e me fizessem sentir confortável com minhas próprias confusões e incertezas, por estarem elas também se questionando e aprendendo sobre si. Pessoas bonitas, pessoas difíceis, gostosas de ter por perto.
Meus amigos, posso agora chamá-los assim.
Tive que encarar minha própria necessidade de solidão. Fazer uma mala, largar tudo pra trás. Esquecer os livros, os conflitos pessoais, os pequenos laços materiais.
E num novo pequeno espaço me sentir em casa - ao lado da cama, alguns livros, cartas, e meu filme preferido. Meus cadernos de letras, meu violão. Guardei teu disco, com meu nome no meio, depois de olhar pr'aquilo tantas vezes.
Li as cartas, de novo e de novo. "Pequenas cápsulas de carinho", no meio de erros e mal-entendidos. Parecia que fazia anos que as tinha lido no ônibus fugindo pra casa.
Agora eu fugia de tudo, fugia dos dois, das perguntas, das discussões, das cobranças, fugia pra mim.
Você pegou sua mala, foi pra sua viagem tão desejada.
A cidade pegava fogo, meu pulmão ardia. Meu lenço xadrez com um cheiro acre que não vai embora.
Acompanhei teus poucos relatos, com sentimentos confusos.
Você nem sabe o quanto doeu descer aquela rua de novo. E a chuva que caía, caía, sem parar.
Encaixotar o pouco desencaixotado, desacreditar na cozinha em que eu tanto gostava de conversar contigo, embalar canecas e discos, facas e chás. Fui dizendo adeus, de novo e de novo, a cada vez que fechava a porta atrás de mim.
Chorei, sentada na beirada da cama, com o teu cheiro na blusa, no quarto.
Chorei andando na rua, gritando de dor, num por que, por que diabos ficou tudo tão complicado?
Chovia, chovia e a cidade ardia.
Sabe toda aquela minha ânsia política, minha angústia de fazer, de mudar que não achava como? Tenho-a cá comigo, todos os dias, tentando fazê-la um pouco mais satisfeita. Carrego-a abraçada junto ao meu peito, e esqueço o cansaço, a tosse, o quase desespero de mais um dia ainda sem resposta.
Senti muita raiva, senti medo. Nem sei te explicar tudo que senti correndo por debaixo daquele viaduto, não conseguindo correr naquela multidão. Mas tive quem segurasse minha mão, quem se apoiasse no meu braço, quem me esperasse pra correr. Bombas de pânico, é disso que se tratam. Depois de 10 minutos passa. Seu nariz pára de escorrer, você consegue abrir os olhos e voltar a gritar.
Sentados na calçada, respiramos.
Dividimos uma cerveja, mais um cigarro, mais um noite mal-dormida. Dividimos a revolta, o cansaço, mais um arroz com legumes, um espaço no sofá. Mais uma reunião, mais uma luta pela manhã. Mudanças dão trabalho. Pessoais e coletivas.
Tive insights pesados no último mês. Quase deixei uma prova pela metade, tamanha falta de sentido eu vi naquilo. Não o fiz, você me conhece. Mas tomei decisões. E, devo dizer feliz da vida, que achei convicção nelas ultimamente.
Senti sua falta, claro que senti. Chorei de saudade, de ouvir músicas que ainda não consigo ouvir, de ter acreditado tão piamente num futuro que acabou antes de começar de fato. Certeza absoluta, eu não tenho de nada. As escolhas foram feitas, e tenho pra mim que foram as certas.
Encontrei apaixonamentos, mais e menos bobos. Por um novo projeto, por um amigo que parece que sempre procurei, por uma noite menos fria, por um ataque de riso de madrugada. Novas caixinhas com barbante.
Sento diante de uma folha em branco, uma tela e o cursor que pisca, pisca. Começo letras, esboços, penso em cenas, me fervilham ideias, vontades.
Tantas coisas atrasadas por terminar, por finalizar, é preciso, é necessário, tanto, quanto.
Me desculpe a falta de paciência, tudo parece tão urgente ultimamente, não cabem discussões vazias, essa mágoa, essa tristeza mal resolvida. Eu não tenho tuas respostas, você tampouco as minhas.
Talvez um dia hajam canteiros, prateleiras cheias de livros, um gato no pé da cama, apartamentos com escadas de madeira em lugares distantes, risadas em um balcão no meio da cozinha. Talvez eles vivam apenas em nossas lembranças de sonhos conjuntos.
Então que tudo se acalme e reste o carinho.
Daqui de não tão longe te escrevo, meu amor. Cruzo minhas mãos sobre o peito, olhando para a ausência de estrelas.
Estive correndo quase sem respirar nos últimos dias, mal reconheço o ar em meus pulmões.
Guardo a saudade do teu sorriso e de tudo que fomos e desistimos de ser, e te beijo a bochecha, pouco antes de dormir.


07 abril, 2012

_para ler ouvindo:
http://www.youtube.com/watch?v=TDGhJDbyhZk&feature=related



"É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela"
(Nietzche)


e que ela possa cantar e sorrir,
pequena estrela emaranhada em barbante
toda uma sede de precipícios
e pequenos desastres.

e que ela partindo,
te dê vontade de voltar.