07 abril, 2015

diálogos imaginários I

Ela se sentou ali,
daquela beiradinha de precipício que já era quase sua casa,
e ele sentou-se ao seu lado.
Seus cabelos tinham mudado (no geral estavam mais curtos)
e tinham umas ruguinhas novas nos cantos dos olhos
desde a última vez que tinham se visto.
Pareciam mais adultos.
Um pouco mais tristes (ou fosse tudo saudade)
Talvez fosse o cansaço
ou aquela diferença de fuso horário que deixava tudo bagunçado
aquela coincidência de roupas fim de inverno-aqui-começo-de-outono-ali
-eu não sei o que está acontecendo, irmãozinho
demorou tanto pra isso aqui se arrumar sem você
O vento batia frio jogando o cabelo dele na frente do rosto
-eu lembro sempre disso,
esse jeito de jogar o cabelo pra trás...duvido você perder isso algum dia
-é tipo a sua mexida de cabeça não tocando?
-tipo isso...
Aquele silêncio-cúmplice, percebeu, lhe vazia muita falta

....havia luto, e um embrulho de estômago naquela pausa.

-daí tinha aquele movimento só de pizzacato, dois, três dedos pra dar conta! 
-cinco tomates atravessaram a rua
-três horas de sono por noite
-olha a covinhaa!...
- e numa França sem você, um Berlioz...
-sabe, eu conheço você, não importa quão longe, em tempo ou distância, você vá
aqueles sinos vão sempre soar dentro de você.
Ela sorriu.
Seus lábios meio rachados manchados de roxo-vinho.
Ele passou o braço envolta dela, apontando na distância um sol fraco:
-essa mar é bem menor do que parece, sabe, duende?
nada que você não dê conta.
Sorriram com os olhos.
Antes do que imaginavam, voltariam a se abraçar.

14 janeiro, 2015

Eu me perdi, agora há pouco,
ali, naquela curva logo ali, vê?
ali me perdi de mim.
não lembro bem, mais que um bambeado nas pernas
tinha uma mala e chovia muito...
eu descia uma rua
pegava um ônibus
corria de uma sala
me deram um crachá
me deram uma passagem em branco.
eu trazia uma pilha de papéis embaixo dos braços
e conseguia carregar muito mais peso.
bem, bem mais que agora...
agora tudo parece cansaço
e um bilhete expirado.
Isso aqui me pesa nos braços
essa foto aqui, tua, que carrego pra lembrar
desses sorrisos, que faziam sentido apesar de
tudo em volta.
Tudo em volta é só o que resta agora
esses sorrisos aqui, e uns poucos outros,
embarcaram pra longe.
Inexistiriam nesse aqui de agora.
Logo aqui, bem agora, nada existe.
nada sobrou pra existir.
Só uma memória rasa de quando isso fazia sentido
acima e apesar de,
e você estava aqui, pra segurar os bambeios
de não acreditar em nenhuma das anteriores.

.::pro meu irmão Fúria

24 novembro, 2014

Ela estava sentada.
Pendia a cadeira pra frente e pra trás
e seus olhos estavam secos.
Sua mão direita tinha voltado a tremer
e sentia um incômodo do lado esquerdo.
O gosto no fundo da língua ela conhecia
conhecia o álcool
conhecia o sangue
Conhecia aquele aperto de saudade
que é sempre novo
e aquela angústia do inacabado
que é sempre velha,
o suposto inconquistável.
Aquela quase apatia
não era nova.
Uma pilha de crachás
quinze fotos e um  espelho,
um verso desesperado.
Uma despedida atravessada na garganta
a ladeira amanhecendo.
Nenhum nome numa lista
e em outra
e uma sólida sensação de coisa nenhuma.




13 novembro, 2014

Aquela do texto perdido de começo de ano__

Gosto da minha pele assim, dourada de sol
Do meu pé sujo, sujo, de andar descalça.
Sujo que não sai com um banho só, sabe?
Gosto dos cortes e das pequenas cicatrizes escondidas
Do cabelo cortado do meu jeito daquela hora que cortei
Dos dedos duros e sujos de tocar violão, de mexer com terra, brincar com gato.
Dos dentes meio tortos, caindo uns em cima dos outros em sorriso.
Gosto do vórtice em volta da pupila que se desenha no sol
Das partes meio ossudas, da cintura marcada em contraponto a molequice destrambelhada.
Do medo de escada, do gosto por precipícios,
do cheiro de folha, meio encrustado atrás da orelha,
dessa mania de olhar o contorno das coisas, e guardar o cheiro dos dias , dos cabelos
e do pezinho da nuca, cheirar sovaco,
lamber sorrisos, beijar nariz, de sentir nostalgia antecipada,
chorar em briga, não saber falar de amor,
de gostar de sofrer, de não querer mais fugir,
de gostar de fazer e desfazer malas, de ir embora e voltar,
desse soluço na beirada do estômago
que me pega quando tenho coragem,
quando desisto de sentir falta do que não tive,
e vou.

Todo fim de ano eu escrevo um texto pra lá de piegas. É quase uma necessidade, essa coisa de agradecer a própria sobrevivência, os (in)felizes encontros, os cortes no joelho, a propensa depressão seguida de renascimento. Hesitei muito em escrevê-lo este ano. Pelo fim-passagem em si, inédito, esquisito, machucado, todo solidão amarga de saudade e desentendimento. Vontade de gritar pra fazer-se entender, fuga, abandono, silêncio de dias e mais dias que ainda estão.
Esse ano me assombrava antes de começar. Eu o temo, de tão diversas maneiras, que nem no final acho que me farei entender. 2013 - arrasto, 2014 – pavor. Mas no arrasto me fiz encontrar, conhecer, apaixonar, reconhecer. Então uma faísca de todo o medo, que anseia mudança, amanhã, vem logo!, também se anima.
Arrumando minhas coisas hoje, encontrei um bloquinho de programas do TCC do Jota.  Abri e, como todas as vezes, fiquei abobalhada, chorando com aquele “agradeço as malas feitas e desfeitas, que fizeram de mim o que sou”. Nunca achei uma epígrafe melhor pra meu viver em São Paulo que isso. Sobre o mudar-se, ir embora, o acreditar, mudar de novo, e de novo e de novo, todas as pequenas malas de semanas e mês, de deslumbramentos e sonhos remodelados, malas de além-continente, além-mar, de planejamentos desfeitos, famílias criadas e recriadas.
Meu peito doeu. Literalmente. Às vezes acontece. E sabia que precisava escrever. Piegas, desabado, escancarado, o que fosse, era preciso escrever.
Porque 2013 virou tudo do avesso-certo, se assim podemos achar/chamar um certo.
E era preciso honrá-lo e agradecê-lo, dentro de todo peso, arrastamento, dificuldade, ao menos (e tanto, e quanto!) pelas boas companhias (re) encontradas.
Quando eu tive a ideia do Caixinhas, numa madrugada malfadada de álcool e discussões perturbadoras, eu sabia que era o momento de me reconciliar com minhas lembranças e entendê-las como tal. Conforme organizava uma espécie de dramaturgia daquilo, desci por várias escadas até salas úmidas, abrindo caixas, fuçando cartas e bilhetes esquecidos, buscando uma forma de contar aquela história. Minha cabeça virou um alvoroço de lembranças. Poemas, estranhas declarações de amor, pedidos desesperados de segunda (terceira, quarta...) chance. Relacionamentos imaginários, noite de balões, de cafés, de vômito, de gozo, golpes de confiança quebrada, amizades escancaradas. Sentir-se importante pra alguém - “Creio que sou uma pessoa melhor junto com pessoas semelhantes a você.” Coisas sobre estrelas, sobre o mar, sobre neblina, sobre saudade, e a incapacidade de relacionar-se. Amargo-desespero, solidão, encontrar-se no outro e perder-se, cheiro de álcool às 7 da manhã. Sobre descobrir-se forte e salvar-se, na falta de qualquer outra pessoa que possa fazê-lo por você. Brilho no caos, um girassol da cor de seu cabelo, malas refeitas, ladeiras e chuva. Uma porção de adeuses.
O grande barato de fazê-lo, no entanto, como muito do que aconteceu nos últimos meses de 2013, era a simultaneidade desse passado revisto - histórias sendo contadas, partilhadas - com o conhecer, apaixonar, criar das pessoas que surgiram e fizeram a ideia parecer possível. Cenários desenhados, cartas recortadas, explicações de setlist com o encartar-se com o Relampiandos, o igualar-se na pieguice-pra-não-voltar com o Jota, o fervilhar de ideias comuns e o criar junto com a Priscila e o Caio, rompendo com o não-consigo-fazer-isso-de-improvisar, um misto de admiração e amizade e acolher e sentir-se acolhida, a ressignificação de músicas e o reencontrar mútuo do Clube, e as madrugadas adentro de tocar e fascinar-se, apaixonar-se, fazer-se acreditar.
Essa coisa do “onde você esteve todo esse tempo?” e “por que diabos eu não vi vocês? Não fui ver tal peça, bati em tal porta, fiz tal coisa que podia nos encontrar?” com um conhecer-se quase voraz, entregue, apaixonado. Devorávamos convivência. Encontramo-nos por um acreditar comum, um lutar compartilhado. Talvez se deva a isso nosso encantamento primordial. Num dia nunca tínhamos nos enxergado, no outro batíamos boca lado a lado e dividíamos barracas, cobertores e arroz com legumes.
Entender o amor, o dividir, o repartir-se. Já não temo, abro-me. Todo um coração aberto. Sou toda sentimentos confusos, dispersos, despejados. Derramo-me sobre você, sobre outros e quem vai chegar.

A raposa se apaixonou por um escorpião, pela náusea, pelo cheiro de tinta, pelo trôpego de suas pernas, pelos sorrisos despertados, pela embriaguez de quase morte instantânea que nunca é tudo isso, pelos adeuses de si mesma - ou dos pedaços de si desencontrados - por um boneco de fita crepe, pelos olhos marejados, pelo acreditar dos outros nela que fazia tudo tão possível, por tanta coisa dentro e fora de si, que não saberia dizer.

05 novembro, 2014

às vezes ela sentava ali,
naquela beirada de precipício
(que a bem da verdade costumava ser uma sarjeta
ou beirada de cama qualquer)
no meio do caminho de um pulo que nunca chegava.
pendurava-se pelos pulsos que doíam,
respirando o vento parado na sua cara,
o gosto férrico no fundo da garganta
"todos os caminhos nos levaram até aqui"
e linhas desenhavam-se em sua pele
como quem conta uma história.
os olhos muito brilhantes e murchos de um cachorro preto
a olhavam em interrogação
e ela tentava lhe dizer que tudo aquilo tinha feito sentido antes
mas tudo que ela via sair da própria boca
não fazia sentido algum.
a paleta da minha cabeça está mudando de cor
novamente
-- era isso que ela tentava lhe dizer.
mas ele sabia
porque era por isso que ele estava ali
sentado ao seu lado naquela beirada de precipício
que era só uma calçada ou uma cama ou um banco regulável.
em sua mão, ela segurava um punhado de gravetos,
papéis amassados em cartas
e um bilhete de embarque.
não sabia como chegar ao lado.
queria acreditar que transpondo um oceano
tudo voltaria a arder.
e ardendo, doeria,
mas doendo,
saberia-se viva.

16 julho, 2013

Pequena Carta de Amor pro que Acabou

Não há espaços para melindros, é tarde meu bem.
Tanta, tanta coisa aconteceu, logo agora ou um mês atrás, que nem sei por onde começar.
Meus sonhos, aqueles que estavam tão perdidos, tão vazios de si, eu os encontrei. Alguns ainda vagavam ao meu lado confusos, outros eu reconstruí, à base de caquinhos guardados.
Precisei de amigos. Novos amigos, novos espíritos que me dessem força para acreditar.
Pessoas que acreditassem em coisas comuns, das quais tinha me esquecido, e me fizessem sentir confortável com minhas próprias confusões e incertezas, por estarem elas também se questionando e aprendendo sobre si. Pessoas bonitas, pessoas difíceis, gostosas de ter por perto.
Meus amigos, posso agora chamá-los assim.
Tive que encarar minha própria necessidade de solidão. Fazer uma mala, largar tudo pra trás. Esquecer os livros, os conflitos pessoais, os pequenos laços materiais.
E num novo pequeno espaço me sentir em casa - ao lado da cama, alguns livros, cartas, e meu filme preferido. Meus cadernos de letras, meu violão. Guardei teu disco, com meu nome no meio, depois de olhar pr'aquilo tantas vezes.
Li as cartas, de novo e de novo. "Pequenas cápsulas de carinho", no meio de erros e mal-entendidos. Parecia que fazia anos que as tinha lido no ônibus fugindo pra casa.
Agora eu fugia de tudo, fugia dos dois, das perguntas, das discussões, das cobranças, fugia pra mim.
Você pegou sua mala, foi pra sua viagem tão desejada.
A cidade pegava fogo, meu pulmão ardia. Meu lenço xadrez com um cheiro acre que não vai embora.
Acompanhei teus poucos relatos, com sentimentos confusos.
Você nem sabe o quanto doeu descer aquela rua de novo. E a chuva que caía, caía, sem parar.
Encaixotar o pouco desencaixotado, desacreditar na cozinha em que eu tanto gostava de conversar contigo, embalar canecas e discos, facas e chás. Fui dizendo adeus, de novo e de novo, a cada vez que fechava a porta atrás de mim.
Chorei, sentada na beirada da cama, com o teu cheiro na blusa, no quarto.
Chorei andando na rua, gritando de dor, num por que, por que diabos ficou tudo tão complicado?
Chovia, chovia e a cidade ardia.
Sabe toda aquela minha ânsia política, minha angústia de fazer, de mudar que não achava como? Tenho-a cá comigo, todos os dias, tentando fazê-la um pouco mais satisfeita. Carrego-a abraçada junto ao meu peito, e esqueço o cansaço, a tosse, o quase desespero de mais um dia ainda sem resposta.
Senti muita raiva, senti medo. Nem sei te explicar tudo que senti correndo por debaixo daquele viaduto, não conseguindo correr naquela multidão. Mas tive quem segurasse minha mão, quem se apoiasse no meu braço, quem me esperasse pra correr. Bombas de pânico, é disso que se tratam. Depois de 10 minutos passa. Seu nariz pára de escorrer, você consegue abrir os olhos e voltar a gritar.
Sentados na calçada, respiramos.
Dividimos uma cerveja, mais um cigarro, mais um noite mal-dormida. Dividimos a revolta, o cansaço, mais um arroz com legumes, um espaço no sofá. Mais uma reunião, mais uma luta pela manhã. Mudanças dão trabalho. Pessoais e coletivas.
Tive insights pesados no último mês. Quase deixei uma prova pela metade, tamanha falta de sentido eu vi naquilo. Não o fiz, você me conhece. Mas tomei decisões. E, devo dizer feliz da vida, que achei convicção nelas ultimamente.
Senti sua falta, claro que senti. Chorei de saudade, de ouvir músicas que ainda não consigo ouvir, de ter acreditado tão piamente num futuro que acabou antes de começar de fato. Certeza absoluta, eu não tenho de nada. As escolhas foram feitas, e tenho pra mim que foram as certas.
Encontrei apaixonamentos, mais e menos bobos. Por um novo projeto, por um amigo que parece que sempre procurei, por uma noite menos fria, por um ataque de riso de madrugada. Novas caixinhas com barbante.
Sento diante de uma folha em branco, uma tela e o cursor que pisca, pisca. Começo letras, esboços, penso em cenas, me fervilham ideias, vontades.
Tantas coisas atrasadas por terminar, por finalizar, é preciso, é necessário, tanto, quanto.
Me desculpe a falta de paciência, tudo parece tão urgente ultimamente, não cabem discussões vazias, essa mágoa, essa tristeza mal resolvida. Eu não tenho tuas respostas, você tampouco as minhas.
Talvez um dia hajam canteiros, prateleiras cheias de livros, um gato no pé da cama, apartamentos com escadas de madeira em lugares distantes, risadas em um balcão no meio da cozinha. Talvez eles vivam apenas em nossas lembranças de sonhos conjuntos.
Então que tudo se acalme e reste o carinho.
Daqui de não tão longe te escrevo, meu amor. Cruzo minhas mãos sobre o peito, olhando para a ausência de estrelas.
Estive correndo quase sem respirar nos últimos dias, mal reconheço o ar em meus pulmões.
Guardo a saudade do teu sorriso e de tudo que fomos e desistimos de ser, e te beijo a bochecha, pouco antes de dormir.


07 abril, 2012

_para ler ouvindo:
http://www.youtube.com/watch?v=TDGhJDbyhZk&feature=related



"É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela"
(Nietzche)


e que ela possa cantar e sorrir,
pequena estrela emaranhada em barbante
toda uma sede de precipícios
e pequenos desastres.

e que ela partindo,
te dê vontade de voltar.

25 março, 2012

A textura da borracha nos meus dedos
__smoooooothy texture
O dia começou muito tarde.
__ontem não queria acabar

A cerveja vai acabar.
A cabeça fervilhando
O peito com um buraco.
Eu não sei de nada. Não entendo de nada que deveria entender, não aprendi nada direito.
Que fracasso.

E se você sangra é porque está vivo.
__o cheiro férrico de sangue
e dor latejando.
A gente toma uma distância.
Aquela distância da segurança e do não incomodar, mas também a distância pra ver em terceira pessoa, saca? Você se dá a chance de olhar aquilo de fora. E depois de dentro de novo, mas com o distanciamento a considerar.
Eu parei e olhei pra suas fotos. Aquelas que já vi uma porção de vezes na saudade.
E, invariavelmente, senti saudade de você.
Você não faz falta - nunca chegou a estar o bastante pra sentir tua ausência. Você me dá uma saudade de vontade, uma coisa estranha a beça.

Eu tento aprender mais de degustar a solidão com você.


24 março, 2012

Sonhos::: Parte 5__

Depois de uma semana sonhando com a mesma pessoa, com o mesmo tipo e teor de sonhos, eu me senti um tanto quanto culpada. De não estar pensando ou sonhando quanto deveria com quem deveria. (não tem nada de dever à respeito de sonhos, eu sei, mas ainda assim...) Deve ter sido a única vez que consegui guiar minha cabeça a sonhar alguma coisa.
Depois de uns 2 ou 3 dias os sonhos voltaram. Eu senti sua ausência e eles voltaram, pra me atormentar prazerosamente a cabeça, ocasionalmente. 
A fuga e o consolo de saudade tinham o mesmo peso nisso.
Faz tempo que eu não tenho um sonho daqueles. Esse tipo de imagem-meio-lembrança inventou de me perseguir acordada, nos momentos mais errados.
Mas irreais, impalpáveis agora, se tornaram sonhos.

20 março, 2012

Sonhos::: Parte 4__

Ele saiu atrás de sonhos de novo.
Talvez estivesse cansado de não ter bem com que sonhar. Ou espaço pra que os sonhos crescessem.
Algo me diz que vou ficar um bom tempo sem vê-lo.
Que nossos sonhos talvez nunca coincidam de novo.
Que essa mentalidade moralista década de 50 pode mesmo acabar matando um espírito como o dele.

Fechei minhas mãos e pedi apenas pra ele esteja bem.
Sua caixinha apertada contra meu peito.

18 março, 2012

Dreams::: Part 3__ (that should be 1)

There was a time, when I was pretty much younger, that things were much more easier for me to understand.
The things theirselves were more simple I guess.
I don't know if that is the problem in fact, but I was a kid with big dreams. Somekind of really realistic big dreams (for a kid). As I grow up the dreams were changing, getting smaller, but kind of unrealistic. My job to make them real was never clear to me. The amount of effort, hard working and everything were always a hard thing for me to understand and make real.
So, now, my dreams - and they just keep changing all the time- they have this tendency to be a kind of week. Maybe because they change, maybe because I have somekind of difficult about believe in them, and keep them real. Specially my dreams about people. People is a really hard thing to me. They have their own dreams and things to do therefore don't always offer to open space for your dreams in relation to them.
Loneliness ends up to occupy to much space.

15 março, 2012

Sonhos::: Parte 2__

Stephan me contou um sonho complexamente biruta e complicado.
da época sem notícias pra ambos os lados,
de solidão agourenta,
de saudade constante.
Pesadíssimo de ouvir e tentar fugir.
Eu estava lá, o futuro estava lá dando as caras também, e aquilo lhe fez bem de certa forma.
Tinha anjos, prelúdios de boas notícias, sobrevivências inusitadas.

O sonho era do Stephan, o peso todo da Camila.

14 março, 2012

Sonhos::: Parte 1__

Uns dias atrás eu dormi com uma música tocando no fone, com o repeat ligado, ela tocando na minha orelha de novo e de novo...junto com um cansaço incrível de semana de ensaio e tudo mais, aquilo entrou na minha cabeça e se misturou no que eu tava sonhando. De uma maneira muito, muito bizarra que não me lembro ao certo, mas passou de trilha à alguma coisa tocada, e alguém, talvez eu mesma fazendo um arranjo daquilo prum grupo de amigos tocarem. Mas tudo era intenso, confuso, e a música me perturbava de um jeito que não sei descrever. E aquilo foi meio me arrastando, crescendo até eu acordar num golpe, com a música real tocando ainda no fone.
Uns 5 segundos pra entender o que tava acontecendo.
Eu não saberia dizer quantas vezes já ouvi essa música desde que a conheci ano passado. Ela me rendeu uns dois desenhos, e muitas, muitas noites de sono mal-dormidas - da melhor e pior maneira.

13 março, 2012

Eu tenho um barquinho de papel encima do meu computador essa semana.
(O mar do meu coração afogaria ele num instante.)
Tem um disco encima da mesa há semanas. Eu não preciso do disco, ele já foi passado pra cá há muito tempo, além de ser carregado pra lá e pra cá no meu mp3.
Ainda sim ele continua ali, depois que peguei pra olhar qualquer coisa no encarte.
Provavelmente porque ele me faz acreditar num laço pequeno e quase imaginário, mas que é bom achar que existe. Porque ele tira um pouco a saudade boba, ou torna-a ainda mais sólida, e na dúvida, eu deixo ele lá.
Eu não entendo, nem o disco, nem o barco.
O primeiro foi um empolgamento só, que ficou meio antigo rápido, antes de eu entender direito. Que eu fiz tudo errado, no tempo errado.
O segundo me pegou totalmente de surpresa.
Eu tenho uma cicatriz besta no braço, de quando nada disso era complicado.
Eu queria guardar o barco.
Eu queria não ouvir o disco um milhão de vezes.

Eu não queria ser uma cretininha solitária.

03 março, 2012

Eu andei olhando uma porção de coisas velhas esses dias.
Começou comigo querendo achar algum dvd vazio pra gravar uma porção de episódios de Parenthood e esvaziar um pouco meu computador travado. Depois porque estava atrás de umas fotos de 2009 com as meninas para usar num release e não havia meio de encontrá-las a não ser checando uma pilha de dvds, entre os quais eu acabei encontrando fotos que tinha esquecido, cheias de saudades e de gostinho de 'bons tempos' e uma e outra gravação pra lá de importante e/ou definitiva.
Um vídeo meu tocando o terceiro do Dragonetti, as gravações pra Academia, pra Campos, prévias, esse monte de coisas, carregadas de auto-crítica, amargor por decisão alheia e amizades perdidas. Sendo como sou, com um misto de saudades diversas e aquela sensação, benigna mas incômoda, de que as coisas melhoraram, de uma forma ou de outra.
O meu grande problema com coisas velhas, especialmente gravações, não é tanto a auto-esculhambação, mas as minhas reformulações críticas. De maneira geral, conforme o tempo passa e eu forçosamente amadureço e aumento minha experiência musical - tocando, tendo aulas e absorvendo as dinâmicas de didática minha e dos outros e coisas assim - eu mudo minha visão sobre as minhas próprias coisas, e sobre como os outros deveriam vê-las ou ter julgado-as quando tiveram que fazê-lo. Quase sempre eu fico mais brava, é claro. De uma maneira diferente, menos fúria e mais razão, que na época do que quer que seja, mas ainda assim, mais brava. De uma maneira mais sólida. Mais profissional, ousaria dizer. Eu pendo a entender mais aquela raiva de professor, sabe? Quando seu professor fica puto por você (não com você, mas com alguma coisa que te fizeram)? Uma coisa assim.
Quanto mais você vê, aprende e convive com pessoas diferentes, experiências diferentes, mais você desentende a intolerância de alguns profissionais. É estranho, porque você tem certeza que eles passaram por aquilo também, e por coisas ainda mais deslumbrantes que você ainda não chegou a passar, e se pergunta como podem ser tão cretinos mesmo assim.
Foram conclusões básicas da semana:
-algumas coisas nunca mudam
-algumas pessoas usam sempre os mesmos truques e, lamentavelmente, sempre tem alguém novo pra cair
-camaradagem e amizade no meio musical podem tornar-se coisas bem nocivas

__maaas, diante de tudo isso, pare e reflita sobre si mesmo, e as últimas muitas mudanças que você sofreu desde que se distanciou dessa cambada.
Sorria, agradeça e vá pra casa estudar.
Você foi salva, dessa e de muitas vezes, por pessoas incríveis.
Você não é mais daquele jeito, nem cai nos velhos truques, e com certeza tem coisas muito melhores e mais malucas e detalhistas pra pensar e trabalhar. Você está salva. E precisa cuidar pra manter-se assim, mas vai ficar bem..

Foi uma semana complicadamente interessante.
De auto-controle pessoal com surtos de carinho e saudade.
De desespero físico com a não compreensão do que se passa com o próprio corpo.
De lugar novo pra tocar e toda uma empolgação (bastante esquecida) com isso.
De rotina nova, de início de auto-disciplina mais que necessária e planos e agendas.
De encarar as próprias limitações e que se está disposto a mudar isso.
__e que, ainda melhor, se está empolgado pra fazê-lo

Sim, eu tenho amigos incríveis. Professores incríveis. Uma sorte tremenda.









26 dezembro, 2011

estrelas__

Por motivos bem óbvios, eu passo a maior parte do ano sem ver estrelas.
Normalmente quando eu vejo um céu estrelado quer dizer que eu estou realmente em casa, ou bem longe dela.
Quando eu tinha uns nove, dez anos eu tentei mostrar o céu pro Nicolau depois da sua primeira grande fuga, pra que ele pudesse achar sempre o caminho de casa pelas estrelas. O Nicolau era um gato e não deu muita bola pr'aquele papo estranho, e voltou a sumir diversas vezes depois disso. Até uma vez em que não voltou mais. E talvez ainda mais por isso, eu mantive por um bom tempo uma fé infantil de que estrelas podiam traçar teu caminho pra casa.
Eu nunca aprendi direito qual constelação fica pra qual direção e como elas podem ser realmente usadas pra isso, mas tinha um catálogo de nomes, histórias de piratas e desenhos que comprovavam que isso era plausível.

Hoje eu olho pro céu e penso se tal ou tal pessoa está naquele mesmo momento olhando pra ele também.Se podemos ter certeza de alguma coisa, é que todo mundo, em algum lugar, está debaixo do mesmo céu - e isso é, de certa forma, um consolo quando você não bem certeza de como estão.
Quando alguém viaja pra longe, ou começa a fazer muita falta, eu acabo invariavelmente olhando pras estrelas e me perguntando se ele ou ela vai achar o caminho pra casa. Geralmente de um jeito gostoso e mais carente do que deveria, mas algumas com quase o mesmo medo que sentia quando meu gato sumia depois do muro. Sem certeza alguma da resposta. Com um medo danado no coração.
A gente às vezes quer ser a casa de alguém. Que queiram voltar pra gente depois de um caminho longo ou uma viagem cansativa. Que a gente faça uma falta danada pra alguém que uma faz uma falta danada pra gente.
E fica esperando que um dia voltem.
Que apareça alguém que, mesmo indo muito longe, te leve, seja no coração ou na poltrona ao lado.

Eu continuo fazendo pedidos quando, por uma bamba, pego a primeira estrela surgindo no céu.





mais ou menos tudo sobre 2011__

Um ano sobre cansaço, insônia, madrugadas compridas,
sofrimentos instantâneos e duradouros além da conta,
questionamentos,
perda e recuperação de diversos tipos de fé,
bons amigos e novos bons amigos,
e sorrisos incomparáveis.

Porque no fim das contas, todos os anos tem algumas [muitas] coisas boas que acontecem
Sobre o que fazemos por amar os outros,
por se apaixonar de bobeira,
e por amar a nós mesmos.
(e que costumamos esquecer)

___________________________________________



Eu quis que tudo fosse mais simples,
mais fácil.
Depois percebi que não tinha nada a ver.

Eu corri.
Eu voltei a ser totalmente sedentária.
Eu parei de comer.

Eu me apaixonei.
De verdade. Mais que uma vez
e de maneiras completamente diferentes.

Eu fui impulsiva e muito.
Por motivos bons e sem arrependimento.

Eu comprei um livro do Thomas Pynchon pra mim de aniversário/Natal.
Porque eu entrei na Cultura, fui ver livros em inglês e trombei com ele
daquele jeito com puta cara de sinal
(pra pessoas que veem sinal de alguma coisa desse tipo pelo menos 7 vezes ao dia)
Eu não tinha idéia de quem era Thomas Pynchon até julho desse ano.

Eu fiz berinjela assada mais vezes do que meu corpo podia lidar
com um copo de azeite num prato só

Eu comprei Santa Helena num dia de outubro por pura saudade

Eu bebi pra dormir.

Eu passei duas semanas acordando de hora em hora toda noite
pra ver se tinha qualquer notícia.

Eu acumulei garrafas na varanda.

Eu conheci quem me inspirou a começar tudo isso.
E outros que me inspiraram a continuar.

Eu acordei chorando de perder as contas,
eu chorei muito mais vezes do que seria recomendado prum corpo desidratado.
Eu gritei e bati na parede,
atirei coisas longe,
eu chorei no corredor
e no banheiro do bar.

Eu escrevi cartas. De verdade.
Que se manda pelo correio.
Responderam minhas cartas.
Perderam minhas cartas.

Eu quase chorei no meio de um recital.
Tocando o quarteto do Brumby.
Eu sempre quis tocar o Brumby, mas não a ponto de chorar.

Eu fiquei puta pelo menos 106 vezes
com o fato das pessoas não enxergarem o que tá na cara delas.

Eu voltei a cozinhar por puro amor próprio.
(e saudade de casa)

Eu perdi a fé quase que absolutamente em casais envolvendo músicos
e na possibilidade de ter alguém realmente do meu lado.

Eu toquei muito bem numa palestra do Barry Green.
Sem aquecer. Sem nunca ter tocado no baixo antes.
E me senti incrivelmente bem.

Eu pulei uns 5 metros pra dentro de uma cachoeira.
Mas provavelmente teria arregado se a Val não tivesse ido primeiro.

Eu chorei com músicas demodê
e com coisas bregas
e coisas que nunca vi a menor graça.

Eu falei sozinha na rua a ponto de olharem estranho pra mim.
Eu conversei várias vezes com o Stephan estando sozinha.
Eu passei a cantar alto quando meu fone quebrou
(e eu voltei a ouvir as pessoas)

Eu quase chorei em quase todos os concertos da Tom.
Nos outros eu chorei pra valer.

Eu toquei músicas de pessoas
e com pessoas
que me ensinaram o que era amar
antes mesmo de ter consciência disso.

Eu me orgulhei de perder a conta
de ser amiga de certos amigos extremamente talentosos
(e mais extremamente ainda pessoas maravilhosas)

Eu fui comprar material de desenho no fim do ano
e não era pra mim.
(Mas comprei uma pena nova pra mim
porque achei que merecia.)

Eu desisti de falar com alguém do meu lado.

Eu percebi que existem pessoas no mundo
com quem você pode ser muito feliz tocando junto.

Eu bebi antes das 7 da manhã.
E não fiquei bêbada.
Mas não fiquei mais triste também.

Eu fiquei orgulhosa de mim por coisas bobas.
E pensando depois, foi realmente importante.

Eu revelei fotos.
Eu pus um monte delas na parede antes das oito da manhã.
E voltei a dormir.

Eu não quis voltar pra casa.
(Na casa só tinha fotos esperando.)

Eu tomei um shot e fui pra vida.

Eu nunca vi tantas pessoas chorando em mesas de bar.
E por motivos realmente consideráveis.

Eu me encontrei em um monte de pequenos momentos musicais.
Eu me perdi totalmente da razão.
Eu me encontrei comigo mais vezes do que gostaria
Com direito a gritos, brigas e abraços de saudade.

Eu encontrei pessoas pra conversar
e entender.
Pessoas com quem sonhar.

Eu fugi.
De pessoas, situações, testes, do meu contrabaixo.
De mim.

Eu não quis morrer.
Mas também não dava a mínima pra viver.

Eu tive muito, muito medo.

Eu recebi elogios inesperados.
Inusitados.
De pessoas que eu realmente admiro.
E fiquei orgulhosa de mim.

Eu fiz brindes e quebrei taças.

Eu escrevi uma pilha de cartas que não foram enviadas.
Que não tem data certa pra serem.

Eu fui no Municipal ver o John Malkovich
(e eu realmente achava que nunca ia vê-lo no teatro)
ver meus amigos tocarem,
ver minha professora tocando meu solo de ópera preferido.

Eu fiquei sozinha.
De novo,
e de novo
e de novo.
E percebi que é normal.
Percebi que eu gosto muito
e odeio ao mesmo tempo.

Eu disse 'foda-se' e me diverti pra caralho.

Eu escrevi músicas.
De harmonia besta,
mas sinceras de doer (pelo menos no meu peito)
Eu gravei uma com meu pai.

Eu voltei a andar de skate.
Fiquei bêbada e tomei um puta tombo
-tudo dentro do previsto.

Eu me surpreendi sentindo mais saudade
do que esperava.
do que deveria.
Mais do que um dia achei ser possível.
Saudade de uma semana,
saudade de ônibus saindo da rodoviária voltando pra Sampa,
saudade de ônibus voltando pra Curita,
saudade de avião e de problema não solucionado
saudade fechando a porta do carro.
Saudade de tempo todo,
saudade de casa,
de quem ficou pra trás e mudou,
saudade do 'até quando?'
do 'quando de volta?'
do 'quando?'
saudade inesperada,
saudade temida
saudade chorada,
saudade aos berros
e no maior segredo.
saudade de um dia,
de umas poucas horas,
do que eu nem lembrava mais,
de quem eu finjo que não sinto,
de que eu me acostumei a sentir,
saudade de mim.

Eu acreditei em recuperações, em reviravoltas,
em milagres, em promessas,
em tudo de absurdo relacionado à mudanças.
Eu mandei tudo à merda.

Eu fiquei preocupada.
Desesperada.
Compulsiva.
Sassariquenta,
Confusamente bilíngue,
Tonta que só,
Triste que só vendo,
Brava,
Absurdamente possessa,
Semi-zen,
Riso fácil,
Bêbada,
Medrosa,
Engraçada,
Impulsiva,
Alegre de dar gosto,
Absolutamente maluca.
E daí voltei meio ao normal.
(todas as anteriores incluídas)

Eu quis ir pra casa,
que esquecessem meu nome.
Que se lembrassem de mim.
Que percebessem.
Que entendessem.

Eu quis parar de chorar.
Eu não consegui.

Eu ganhei cds incrivelmente bons de amigos
que realmente sabem fazer música
e te fazer dar risada.

Eu vi meus exemplos de força
parecendo tão frágeis.
Eu fiquei tão triste
que quase não percebi quem tava triste também.

Eu arrumei pela última vez do ano a casa,
pra estar bonitinha quando voltar.
Ouvindo música e cantando alto.
E senti um negócio rasgando meu peito,
doído de verdade.

Fui me despedir dos meus amigos.
Pra viagens, férias, viagens de trabalho e de sonho.
Respondi mensagens do outro lado do mundo,
fiz amigos por osmose.

Eu desenterrei músicas.
Eu ouvi a mesma música um milhão de vezes.

Eu consolei pessoas
quando já não achava coisa nenhuma pra acreditar,
muito menos pra dizer.


Percebi que acabei parando em dois lugares
onde me faz muito bem estudar
E  que não existem turmas perfeitas,
mas as nossas chegam bem perto.
Minha família aumentou,
meu coração estreitou,
e voltou a ser corajoso que si só.
Eu perdi meu quarteto,
mas ganhei um trio.
E um duo pro próximo ano.
(2 ou 3 às vezes é muito mais que 4)


Eu me decepcionei com pessoas,
eu me surpreendi com pessoas,
eu deixei de prestar atenção em quem realmente merecia
e caí na mesma bobagem que alguns
de julgar precipitadamente mal suas opiniões
ou ações sobre algo a meu respeito.

Eu esperei que entendessem.
E percebi que quase nunca isso acontece.

Eu me despedi.
Eu fui procurar.
Eu fiquei esperando.
E em algum momento eu percebi que,
totalmente contra minha vontade e convicções,
estava começando a desistir.

Eu casquei o bico,
chorei, reclamei
e falei um monte com a minha mãe no telefone.
Eu fui vê-la bem menos do que gostaria.

Eu me conformei comigo mesma.
Com toda a incompetência, falta de realizações
e planos bem sucedidos dos últimos anos.
Pra que pudesse finalmente começar a mudar.

Eu ganhei amigos.
Ganhei sorrisos incomparáveis,
abraços, declarações,
poemas perfeitamente escolhidos.
E um versinho improvisado e bonito.

Eu subi no telhado pra ver estrelas.

Eu quase dormi na grama.

Eu guardei pedras e conchas.

Eu dormi muito pouco.
Acordei muito tarde.
Não consegui acordar.
Não queria acordar.

Eu passei uma semana me alimentando basicamente
de coxinha e cerveja.

Eu entendi um pouco melhor os cachorros.
Os gatos continuaram me fascinando.
E entendi ainda menos as pessoas.

Eu vi semi-milagres de Natal.

Eu chorei de dar risada com a minha irmã.

Eu vi o sol nascer.
Conversando,
voltando pra casa,
ouvindo música boa,
esperando o metrô abrir.
E sorri.

Eu fiz as malas mais uma vez.

Eu comecei tudo de novo.

















23 dezembro, 2011

Porque é Bom__

Diante de tanto assombro de passado essa semana, eu fui ler uma coisa muito velha que me escreveram. Muito velha assim, dos longínquos tempos de 2007 rsrs. Coisa complicada.
2007 foi um ano marcadamente bizarro na minha vida. Foi o ano que vim pra São Paulo, o ano que marcou que esse lance de tocar contrabaixo era pra valer, que tomei mais decisões que tinha condição, me abismei e encantei com pessoas excessivamente e, como convém a uma pessoa de recém-dezoito impulsiva que si só, tomei vários capotes.
2007 me ensinou a ser gente. Me deu idéia do que era necessário pra ser adulta. Pra viver nesse meio musical meio sujo, meio desonesto, muito menos encantador que o esperado.
De lá pra cá meus anos ímpar tem sido sempre estranhos e incrivelmente difíceis (não é nada cabalístico, na real só pensei nisso agora, quando tava escrevendo)
2007,
2009,
e 2011.
A palavra chave é aprendizado.
O meio comum é o sofrimento.
Lá pelo meio eu acho que não vou aguentar. Que isso já passou do limite, qualé que é mundo e coisas bem piores. Que não sou nem um pouquinho forte o bastante pra tudo isso.
Perco fé, perco esperança de um monte de coisa, não acredito em mais nada, redescubro um monte de coisas, de repente aparece alguém, complica tudo, tudo dá uma amainada, complica tudo de novo, os planos se frustram, eu fico ainda mais brava, fico um lixo, fico triste, fico desesperada.
E quando acaba, e eu pego o ônibus, volto pra casa, percebo que sobrevivi.

Dessa vez eu percebi que cada uma que passou, das grandes e sérias, fez com que justamente isso acontecesse - eu sobrevivesse. Que a Camila não se perdesse, não deixasse de existir. Cada vez que uma pessoa me derruba, geralmente as que eu gosto pra caralho, de qualquer forma que apareça, mal resolvida ou não, eu tenho que achar isso de novo. As coisas que me fazem ser quem eu sou. Inclusive características bem pouco agradáveis, ou complicantes que eu tenho. E olhar, pegar aquele pacotinho mal-acabado, molhado de chuva, de lágrimas, rescindindo a álcool e cansaço, e achar uma coisa bonita dentro. Achar que aquilo merece ser salvo. Não importa o porquê. Os motivos são aleatórios, às vezes nem motivo tem. Eu preciso ser salva. E é o que acontece.

Eu sou bem mais forte do que costumo lembrar em situações de desespero.

E a cada uma dessas mais difíceis me deram - e tem dado - uma coisa boa, esse conforto de ser eu mesma. Sem nenhuma presunção disso ser o máximo mas é o que, no fim das contas, você mais precisa ser convencido que vale a pena - e de fato vale. É o que de mais concreto você acaba tendo. Claro que a gente vai mudar, sobre uma infinidade de aspectos, mais uma porção de vezes na vida. Mas certas coisas, sobre si, sobre viver e como viver, e como fazer as coisas, e o que fazer, você tem que simplesmente assumir. Mesmo que seja por hora, mesmo que você mude depois. Isso é, pelo menos, um conflito a menos na vida rs.

Eu acho que nunca terminei um ano tão frustrada comigo mesma profissionalmente. Mas isso veio justamente dessa coisa de olhar pra si. Na beirada de janeiro já, nesse fim de dezembro, as coisas já não tinham mais como se acumular, e continuaram acontecendo. Eu já tava mais que nesse estágio do 'não tenho  força pra isso não' e de repente me toquei disso. Eu olhei em volta. Olhei pras pessoas. Pessoas que eu conheci, pude passar alguns dias perto, e pessoas que de repente permaneceram na minha vida esse ano. Pessoas que continuam aparecendo através delas. Pessoas que de fato eu ganhei de presente. Fiquei orgulhosa. Olhei pra trás, pra quem ficou, pra coisas que finalmente consegui superar, e fiquei ainda mais.
Eu admiti coisas sobre mim pra mim mesma. Sobre como eu vivo e como sinto coisas, principalmente em relação às pessoas. Sobre relacionamentos. Sobre fazer música. Sobre minha capacidade e [não] aproveitamento criativo. Daí bateu a frustração. Senti que não ando fazendo nada, há tempos. Mas sei que não é completamente verdade. Mas me senti em condições de ser honesta comigo mesma sobre isso. Sobre necessidade de estudar, sobre como fazê-lo, sobre tocar outras coisas, ter coragem o bastante de assumir coisas que sempre quis fazer e fui meio me perdendo e por isso requerem trabalho, mas são possíveis. E potencialmente mais satisfatórias. Pra dizer 'eu posso fazer isso', não porque é mais fácil, mas porque eu quero. Porque é bom.

Era simplesmente isso.
Claro que não só isso, teve mais merda acontecendo comigo e com pessoas à minha volta nesses dois últimos anos do que sou capaz de contar.
Mas isso é parte essencial.
Querer fugir de coisas que não gosto sobre mim mesmo, ou que eventualmente eu achava que prejudicavam minha relação com as pessoas - ao ponto de prejudicar minha forma de me comunicar por exemplo, o que é bastante importante pra mim - me renderam várias situações que só me afastaram ainda mais de resolver qualquer coisa. Querer ser o que outra pessoa esperava de mim não podia dar muito certo. Eu tinha que olhar pr'aquilo e ver até que ponto aquilo poderia ser mudado - e deveria sê-lo e por qual motivo. Por mim, e pela relevância daquilo na minha vida, e nas minhas próprias necessidades e prioridades.
Parece um discurso extremamente egoísta, eu sei, mas foi meu meio de sobrevivência recente.
Admitir que às vezes o que eu realmente penso ou faria à respeito de uma coisa não é o esperado por quem tá em volta. Que eu não acho certas coisas tão erradas quanto boa parte dos meus amigos, e que a gravidade de uma mesma ação é muito variável dependendo de quem está envolvido e quem - e como- sai prejudicado. Sem canalhice, sem trapaças ou nada assim. Eu nunca fui e duvido que algum dia consiga ser assim. Mas sem frescura também.
Me sentir confortável comigo mesma era uma coisa meio latente nos últimos tempos.
E sinceramente, me deixou mais calma. Mais complacente com esperar o que está por vire o tempo de resolução de situações muito complicadas. Menos afoita de provar qualquer coisa pra quem quer que seja.
Todas aquelas máximas do ano voltando à cabeça.
"Keep it simple" é a do Barry Green, que aprendi em outubro.
Aplicável à quase tudo, agora e sempre.

13 dezembro, 2011

Não Destrua as Coisas Bonitas

Isso é mais ou menos como um mantra de Ano Novo.
Ele diz "não destrua as coisas bonitas"
Deixe elas viverem em paz

Deixe que as pessoas se aproximem e toquem sua vida 
mesmo no pior momento que você possa estar vivendo
as relações são meio como flores que desabrocham e crescem 
ao seu próprio tempo
Deixe que elas sigam seu curso
Não pense que porque uma te feriu
ou se mostrou do avesso 
todas assim serão
Deixe que as pessoas sejam o que são
Se forem pequenas e vazias tanto faz
Se forem bonitas, deixe-as em paz

Não destrua as coisas bonitas
Não baseie todo seu julgamento do que acontece com quem está do seu lado
pelas suas próprias necessidades ou conceitos de felicidade
As pessoas são diferentes e nunca sonham igual
E talvez não pareça assim pra você,
e mesmo que você ache tudo ao contrário,
ou que mereceriam coisas melhores
abrace-os e festeje qualquer novo lampejo de felicidade em suas vidas
Escute-os e entenda que suas coisas bonitas
o são por outras razões que as suas 
mas ainda assim não devem ser destruídas.

Você será magoado,
seu coração despedaçado mais uma centena de vezes.
Nada muda com um nome ou data
Existem poucos milagres de Natal,
surpresas de aniversário ou promessas de Ano Novo
que façam valer uma mudança significativa.
Siga, com a maior firmeza de passos que conseguir,
mas não pise em qualquer pequena pérola 
que encontrar.
As coisas mais bonitas geralmente são pequenas
e difíceis de enxergar

Não destrua as coisas bonitas.
Deixem que pessoas te amem e cuidem de você
tanto quanto você gosta de fazer por elas
Permita que te deem, para que você possa dar
Você não vai resolver a vida de ninguém,
desista antes que fique mais cansado.
Simplesmente esteja. Fique. Permaneça.
Distância nenhuma impede corações bem-aventurados
Pode ser que seus amigos te esqueçam por um tempo
pode ser que você precise de um tempo afastado
Mas deixe-se voltar quando sentir apropriado
e deixe que voltem, 
mesmo com diferenças mal-resolvidas.
A falta que eles fazem é provavelmente muito maior
que qualquer necessidade de razão
ou justificativa de uma atitude qualquer.

Não destrua as coisas bonitas
Aproveite as conversas inusitadas que possam acontecer 
no metrô, numa fila de rodoviária,
numa balada gótica ou numa corrida no Ibirapuera
Mesmo que seja sobre nada,
mesmo que você nunca mais veja aquela pessoa.
Aquele agora é importante.
e pode ser ainda mais pra quem está do outro lado da conversa.

Não destrua as coisas bonitas
Deixe as pessoas que sorriem juntas sorrirem, 
não se meta a arriscar fazer alguém infeliz
Não importa o quão injusta ou mal-arranjada
seja a configuração das coisas na sua vida
ou que pareça que algo assim bonito 
nunca aparece desse jeito nela.
Em algum momento isso vai acontecer pra você.
Se não, destruir quem já o tem não vai fazê-lo menos infeliz

Não destrua as coisas bonitas.
Tudo que te aparecer vai ser diferente
e um carinho nunca será igual
a qualquer coisa que você já encontrou
Deslumbre-se com como as pessoas são fantásticas
como são boas em alguma coisa
-mesmo que seja no que você gostaria e ainda não consegue - 
e com a sorte que você tem delas terem aparecido.
Permita-se ser elogiado, 
permita que alguém goste de você depois de 3 dias
e queira ficar do teu lado.
Permita-se gostar de alguém depois de 3 dias
e querer tê-lo do teu lado.
As pessoas erradas vão continuar aparecendo,
mas isso não deve te impedir de ver as boas 
que continuam surgindo.

Não destrua as coisas bonitas
Aprenda que amizades são diferentes
e algumas pessoas nunca irão embora da sua vida
mesmo que você não as distingua tão bem ainda.
Que as piores impressões às vezes se revelam 
as melhores companhias.
E que algumas que levam tempo e esforço
tornam-se mais presentes que 
as imediatamente identificáveis.
Deixe que as pessoas vão embora.
E aprenda - o quanto antes - que o bonito passa às vezes
e lembranças não devem ser destruídas
mesmo diante de decepções.

Não destrua as coisas bonitas
Faça planos mirabolantes 
e acredite em sonhos absurdos.
Planeje viagens, repertórios, planos de estudo,
mude o lugar do seus móveis,
adote um cachorro,
qualquer coisa que te faça feliz.
Tente realizá-los e chame quem pode embarcar neles com você
pra te ajudar.
Planos conjuntos às vezes são infundados,
mas muitas, muitas vezes 
se mostram mais concretos e realizáveis.
Monte castelos de cartas
e guarde a resolução de quebra-cabeças pra você
até a hora certa de se fazerem revelados.
Aprenda a se realizar por si mesmo,
e para si mesmo.

Não destrua as coisas bonitas.
Se acostume a ficar sozinho, e
ver o quão isso pode ser bom também.
Essa situação vai voltar outras muitas vezes
e a cada uma você pode aprender um pouco mais.
Arranje o que fazer quando chegar em casa
e não tiver ninguém.
Aproveite o tempo que tiver ao lado de quem
faz realmente bem pra você
Chore.
Tantas vezes e o quão desesperadamente se faça necessário.
Ninguém vai conseguir tirar esse tipo de dor de você,
mas você pode ensiná-la a amainar no seu peito.

Não destrua as coisas bonitas
Não sinta-se culpado por rir quando deveria estar triste
saboreie os sorrisos,
as risadas e as piadas internas.
Nem tampouco sinta-se envergonhado
se ela te abater ainda na mesa,
ou se você não conseguir se mexer por causa dela
em mais uma manhã.
Pense e tente ponderar o que você vai aprontar
mas se errar, de novo, 
e de novo,
levante. 
Não tem mais nada que você possa fazer.
Não tome pra você toda a culpa que não é só sua
mas aprenda a lidar com as consequências do que faz.
É bem provável que você acabe se sentindo ridículo
vez ou outra
ou fique muito bêbado e faça um papelão.
Nenhum papel que não vá servir a outra pessoa
no dia seguinte.
Ainda assim,
cansado, sozinho ou muito triste,
olhe pro céu no fim do dia indo pra casa
e em qualquer nascer do sol 
que te ensine de novo
que cada dia pode te trazer coisas bonitas.